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Para Ler na Retrete

Para Ler na Retrete

Crianças com Fome

          Hoje queria fazer algo ligeiramente diferente. Não quero que entendam isto como se eu estivesse a pregar ou educar. Sou a ultima pessoa no mundo qualificada para tal. Tendo em conta que nos últimos tempos perdemos o Notre Dame, um ciclone atingiu Moçambique, houve atentados, entre outras desgraças, é normal que haja uma vaga se simpatia e união do povo por essas redes sociais fora. Nada contra. A parte interessante é a simpatia agressiva. O moralismo e populismo que tem vindo a surgir nos anos recentes, cresce como se, de repente, em cada esquina vivesse um Deus diferente. Na mitologia grega, os vários Deuses dividem-se por vertentes/temas. A parte aborrecida desta moda actual é que todos são Deuses da moral e agem somente por comentários de facebook.
          Ora é preciso saber lidar com isto. Vou tentar por tudo na mesa o mais devagar possível para nenhum Deus ficar para trás. Notre Dame ardeu. Marcas de reconhecimento internacional com capital de milhões decidem fazer um gesto positivo e doar alguns desses milhões para ajudar a reconstruir a catedral. O que temos aqui? Vamos analisar a situação: um edifício muito bonito e com história ardeu. Pessoas ficaram tristes. Alguém voluntaria-se para ajudar a por esse mesmo edifício de pé. Não vejo nada de negati... ENTÃO E AS CRIANÇAS COM FOME? DÃO MILHÕES PARA O NOTRE DAME E AS CRIANÇAS EM ÁFRICA QUE MORRAM SEM NADA PARA COMER!
          Ah. Afinal não foi uma coisa positiva. Vamos a outra situação. Devido às manifestações dos coletes amarelos, imensos negócios sofreram danos na ordem dos milhares de euros. Montras destruídas, lojas pilhadas, restaurantes queimados. Ninguém diz que os manifestantes não têm razões para protestar mas os donos dos negócios não têm culpa das políticas do país. Dada a desgraça alheia, um grupo de personalidades e empresas, decidem unir-se e fazer doações para que estas pessoas possam reestabelecer os seus negócios e continuar a sua vida. Portanto, vamos devagarinho: pessoas indignadas destroem a forma de inocentes sobreviverem ou até mesmo lucrarem, mesmo estas ultimas não tendo culpa de nada. Quem pode, ajuda estes inocentes a voltarem a levantar-se. Não vejo nada de negati... ENTÃO E AS CRIANÇAS COM FOME? ESSAS ESTÃO LITERALMENTE A MORRER SEM NADA PARA COMER POR ISSO SÃO MAIS IMPORTANTES E URGENTES.
          Certo. Enganei-me outra vez. Então só um último caso. Vou a andar na rua e vejo um senhor sem abrigo. Este pede-me uma esmola ou algo para comer. Ofereço-me para lhe comprar uma sandes no café mais próximo. Acho que estou a fazer algo positi... ESSA SANDES PODIA IR PARA UMA CRIANÇA EM ÁFRICA. Podia mas neste caso dei a uma pessoa menos favoreci... MAS O QUE É MAIS URGENTE? AS CRIANÇAS A MORRER À FOME OU UM SEM ABRIGO?

 

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          Isto começa a dar-me impulsos assassinos. A vontade que dá é dar estes capitães da moral de comer aos animais do canil. Se calhar é má ideia, coitados dos pobres bichinhos se já estão na merda não precisam de comer merda também. Será que isto é realmente pena dos menos afortunados ou é uma forma de compensar a falta de sexo? Ninguém me come desde 1987 por isso, vou lutar contra injustiças. Nomeadamente impedindo qualquer ser humano de viver sem culpa. Eu também me preocupo e gostava de fazer alguma coisa em relação a pessoas que passam fome. Isso não significa que pare de fazer qualquer tipo de boa acção, independentemente do quão pequena ou grande, só porque ao invés disso podia estar a ajudar estes desgraçados. Reparem que se as marcas que fazem doações não o fizessem, ninguém lhes moía a cabeça por não doarem.
          O meu ponto resumido é: o argumento "então e as crianças que morrem à fome" é uma óptima maneira de não discutir e ficar parado. Os palermas que soltam esta frase como quem muda de camisa, deviam soltar essa frustração toda contra as pessoas que desviam donativos fazendo com que haja cada vez menos pessoas a ajudar. Relembro o caso das raríssimas. Toda a raiva e indignação deve ir para quem impede a progressão, nomeadamente através de corrupção ou falta de acção judicial.

O maior obstáculo da Mulher

         Katie Bouman em 2019 foi a principal responsável pela primeira foto a um buraco negro na história da humanidade. Mary Anderson em 1903 inventou o para-brisas, uma alavanca que usamos todos os dias, mais que não seja para efeitos de homenagem pouco digna ao mosquito que se aventurou à nossa frente. Maria Beasley em 1882 foi responsável por trazer ao mundo a versão melhorada e completa do bote-salva vidas que já salvou milhões de pessoas. Acredita-se que a cerveja tenha sido inventada por mulheres na Suméria cerca de 6000 A.C - que tinham nada mais nada menos que uma Deusa da cerveja: Ninkasi. Se alguma vez me tornar devoto de alguma religião, obviamente que Ninkasi será a minha toda a poderosa suprema figura a quem irei rezar todos os dias de caneca na mão.
          Podia continuar o dia todo a referir impressionantes feitos da mulher ao longo dos tempos e como não faz sentido em pleno século XXI ainda existirem situações em beneficio dos Homens. É para mim incompreensível que, com exactamente a mesma actividade, uma pessoa receber melhor salário que a outra única e exclusivamente porque foi dotado à nascença de um mastro. No entanto identifiquei algo que penso estar a atrasar o progresso feminino no mundo. Não é uma questão de força, não é uma questão de jeito, não é uma questão de paciência. Na minha opinião masculina, penso que é uma maldição de incompatibilidade provocada por estrogénio. Falo concretamente de... abrir frascos. Quem diz frascos diz potes. Todo o tipo de recipiente com uma tampa de plástico ou lata que é enroscada.

 

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          Existem por essa Internet fora, milhares de "artigos" sobre dicas para resolver este problema. "6 dicas para abrir facilmente frascos". "Nunca mais tenha problemas em abrir frascos". Nada resulta. O único conselho viável para resolver esta situação é pedir ao marido ou outro humano do sexo masculino com mais de 14 anos que houver mais à mão. Chegam a existir rapazes, filhos de pais divorciados que vivem com a mãe, que até à idade adulta nunca provaram um picle. Aqueles que provaram, normalmente apanharam o dito cujo do chão, pois a paciência esgotou e o frasco foi partido contra o balcão da cozinha.
          A ciência não quer saber desta questão, no entanto, tive uma ideia que gostava de partilhar. Estou a pensar andar em tour pelo país (e quem sabe, pelo mundo) a dar workshops sobre abrir frascos. Mas atenção que é um workshop completo. Planeio abordar todos os tópicos essenciais: atitude perante o recipiente; respirar fundo antes de colocar a mão na tampa; rotação e introdução à teoria da força centrípeta; não desistir perante a primeira tentativa; significado dos sons da tampa; conclusão e agradecimentos perante o sucesso. Estou até a planear uma parceria com o Gustavo Santos para uma série de livros de auto-motivação e inspiração perante o frasco. Quem sabe fundar até uma doutrina religiosa onde em conjunto, podemos todos acender uma velinha em agradecimento após cada conquista de frasco aberto. Ao invés de hóstia, cada peregrina engolia um picle. Louvado sois senhor por nos permitires em toda a vossa bondade, saborear este picle, que tanto suor e lágrimas nos fez soltar. Tudo isto sem a parte da pedofilia. Já agora fica a nota, nesta religião, não há picles menores de idade.
          Ainda é uma ideia que precisa de ser oleada mas penso que tem pernas para andar. O meu único medo nisto tudo é se, após conquistada esta barreira, a mulher não deixa de precisar do Homem. É possível que esteja aqui a começar a extinção do sexo masculino. Para evitar isto, é necessário que cada um também faça a sua parte nomeadamente com o seu próprio picle. Por hoje é tudo e, caso alguma marca tenha interesse em patrocinar esta ideia dos workshops, é só mandar mensagem e vamos fazer isso acontecer.

Revelações em relações

          Foi o primeiro encontro. Uma faísca que andava a ser acicatada à muito entre Joana e Carlos, finalmente procurava ser conflagrada. Seria uma noite sem barreiras. Uma noite de conhecimento interior e exterior. Uma noite em que não havia tabus, não havia vergonhas e muito menos segredos.
          Começou de forma muito jovem e habitual. Encomendaram uma pizza e escolheram um filme, uma comédia romântica. Depois provaram vários licores enquanto as perguntas ficavam cada vez mais pessoais e a alma cada vez mais despida. O licor de laranja revelou os seus maiores segredos. O licor de maçã revelou o sabor dos seus lábios. O licor de limão revelou o que a roupa escondia.
          E assim foi. Carlos e Joana fazem agora um ano de namoro. Desta vez e, para comemorar, o rapaz quer repetir aquela que diz ter sido a melhor noite da sua vida. Colocou várias velas a traçar o caminho da sua porta de entrada até à mesa de jantar onde, ainda fechada, estava uma caixa de pizza. Ao lado estavam várias garrafas com etiquetas escritas à mão. Licores caseiros que Carlos conseguiu para uma ocasião tão especial. O mesmo filme na televisão. O mesmo casal tão apaixonado. Mas o tempo dá e o tempo tira.
          A jovem Joana, talvez por tão cega de amor, quis tomar uma medida para ter a certeza que este relacionamento seria para durar. Como sempre acontece, algumas características ficam escondidas no inicio, de forma a agradar ao máximo a outra pessoa. Joana quis revelar algumas das suas partes descuradas no ultimo ano e, pretendia que Carlos fizesse o mesmo. "Eu não gosto de desporto" diz ela. "Só fui correr contigo todas aquelas vezes porque não quero que aches que sou uma preguiçosa incapaz de se mexer". Apesar de não recolher a noticia com alegria, não foi um problema. "Eu não quero ter filhos. Sei que disse que estava aberto à ideia mas, a verdade é que não tenho intenção nenhuma de gastar um balúrdio e abdicar da vida para educar crianças" - rematou Carlos. Chocada, Joana dá um passo atrás. "Vamos para algo mais leve, de modo a não vir o peso todo de uma só vez. Eu não gosto de Frango assado. Sei que às vezes é prático ir buscar aqui ao lado, visto que não temos de cozinhar, mas eu não gosto." Carlos acolheu a ideia de ir devagar com algum agradecimento. Então decidiu responder com o que achava ser a mesma moeda - "Eu gosto e prefiro comer pizza com ananás. De facto, a que pedi para nós hoje foi com ananás para veres que não é nada mau." Escusado será dizer que nunca mais nada foi o mesmo. Durante o que pareceu ser uma década, houve um silêncio desconfortável na sala. "Como é que foste capaz?" Joana franzia as sobrancelhas de tal forma que o diabo subia ao céu para evitar o contacto visual. "Ananás na pizza? E ainda trazes esse crime para o meio da nossa relação? Alguma vez gostaste realmente de mim?" Carlos não sabe o que dizer. "É assim tão grave?" - Pergunta, enquanto num piscar de olhos, leva uma chapada. "Como te atreves? Ananás na pizza? Andaste este tempo todo a fingir que não gostavas só para me levares para a cama? Não me apareças à frente nunca mais!"
          Isto parece uma história descabida. No entanto, há que dizer que Joana tem toda a razão para ter aquela reacção. Para todas as pessoas selvagens que continuam a colocar fruta em pratos quentes, há um lugar especial no inferno com o vosso nome. Não se mistura ananás numa pizza!