Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Para Ler na Retrete

Para Ler na Retrete

Mecânicos e técnicos informáticos

Tenho saudades das boas e velhas oficinas. Hoje em dia, com a evolução da indústria automóvel e formação de empresas de reparação e vendas de peças de veículos como a Norauto ou a Roady, há jovens que nunca vão saber como é ser devidamente tratado neste ambiente tão corriqueiro e único. À pouco tempo fui a um destes novos estabelecimentos. Na entrada existe uma recepcionista que nos cumprimenta de imediato. Achei estranho mas não comentei nada e continuei. Ao apresentar a minha situação, pediram-me os dados do carro, apresentaram o valor da mão de obra à hora e, caso fosse necessário algo extra, não avançam sem antes falar comigo. Não vi um calendário da Playboy, estavam os mecânicos todos concentrados a trabalhar, ninguém estava de pastilha elástica na boca, usavam luvas... uma vergonha. Nunca mais lá voltei.
Por sorte, tenho um tio que tem uma oficina. Fui então ter com ele para apresentar o problema do meu carro. Se nunca foram a uma oficina privada típica, façam esse favor a vós próprios. Garanto que vale mais a pena que este texto.
Ao entrar na oficina, há carros, motas e jipes por todo o lado, geralmente com o capô aberto e, num deles, o primeiro sinal de humanidade é um rego do cu, dobrado sobre um motor. Para sermos atendidos, damos o "Bom dia" ao som de um megafone, para sermos ouvidos. É aí que o mestre nota que tem clientes. Levanta-se, limpa as mãos a um pano coberto de óleo, mantendo-as exactamente iguais e apresenta-nos o antebraço para cumprimentar.
- Então, há azar? - Esta é sempre a frase de inicio do atendimento. É sucinta, geral e não mói ninguém com detalhes do livrete.
- O carro anda a fazer um barulho estranho já à dois ou três dias.
- Abra aí o capô para ver isso. - A partir daqui, o problema é sempre um de duas opções completamente distintas e que não se cruzam de forma nenhuma. Oh amigo, isto ou é o radiador que está a dar o berro, ou então tem um gato morto no escape. Agora para descobrir, só investigando e a por o carro a trabalhar é que percebo.
- E quando é que pode ver disso?
- Isto agora está complicado, só daqui a duas semanas. Tenho ali aquele Fiat duma gaja que partiu a caixa de velocidades; tenho aqueles dois jipes de uns putos que foram para o meio do campo e lixaram tudo, mas os pais são ricos por isso pagam bem; e ainda tenho esta carrinha que é duma professora do meu puto, bem boa a gaja, que levou uns airbags novos à pouco tempo e agora, é capaz de arrancar dois ou três dentes a alguém com uma chapada de mamas.
- E acha que isso é capaz de ficar caro?
- Epá, olha que eu acho que ela não é dessas. Acumular ensino com, digamos, pinocada à hora é capaz de ser demasiado. Mas se eu tivesse de adivinhar, eu diria que é capaz de levar à volta de duzentas balas à hora. Não me parece que aquela fruta toda seja barata.
- Não, estava a perguntar sobre o arranjo do carro. Acha que fica muito caro?
- Ah, pois isso não sei. Mas não se preocupe que agente depois acerta contas.
Sem orçamento, sem bom dia, sem maneiras e, se for preciso, ainda nos mandam para certo sitio por não percebermos o suficiente do que andamos a conduzir.
Mas eu percebo que os tempos estão a mudar. Estamos na época em que nós, jovens que mexem cada vez mais com material informático, temos de retribuir o caloroso tratamento que fomos recebendo pelos nossos séniores. No meu caso, eu trabalho num local onde se vende e repara material informático. Muitas vezes, quando necessário, vou ajudar também nas reparações. E adivinhem quem aparece lá porque o computador bloqueou ou porque a impressora não imprime?
- Então que se passa com a máquina? - Pergunto ao ver o mestre da oficina a pousar uma impressora ao balcão.
- Epá, desde ontem que isto não me imprime nada. Começa a fazer os barulhos todos como se estivesse a funcionar normalmente, mas depois nada.
- Deixe ver isso. - Neste momento já percebi exactamente o que se passa mas, não quero ser mal educado e resolver tudo no momento. Olhe isto ou tem os tinteiros estragados ou entrou um bocado de pão para o mecanismo.
- Eu realmente na semana passada estava a comer uma sandes enquanto imprimia uns orçamentos.
- Pois, isto agora só abrindo para ver. Mas não lhe consigo fazer isso já. Tenho ali dois portáteis para formatar de miúdos que vão começar os exames no mês que vem; tenho um telemóvel para limpar e aplicar capa de um senhor que o comprou ontem; e tenho também um disco para copiar daquela professora do teu puto que tinhas falado. E sim, realmente é bem boa.
- E em questão de preços?
- Eu concordo contigo, acho que ela não faz mais que ensinar, com muita pena minha. Mas abaixo dos trezentos à hora, acho dificil. Aquilo é muita fruta.
- Não, estou a falar do arranjo da impressora.
- Ah, depende do que for. Mas não te preocupes, deixa-a cá que depois acertamos contas.
Neste momento estou à espera de saber quanto é o arranjo do carro para decidir quanto vai ser o arranjo da impressora.

imagesONHEFN72.jpg

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.