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Para Ler na Retrete

Para Ler na Retrete

Revelações em relações

          Foi o primeiro encontro. Uma faísca que andava a ser acicatada à muito entre Joana e Carlos, finalmente procurava ser conflagrada. Seria uma noite sem barreiras. Uma noite de conhecimento interior e exterior. Uma noite em que não havia tabus, não havia vergonhas e muito menos segredos.
          Começou de forma muito jovem e habitual. Encomendaram uma pizza e escolheram um filme, uma comédia romântica. Depois provaram vários licores enquanto as perguntas ficavam cada vez mais pessoais e a alma cada vez mais despida. O licor de laranja revelou os seus maiores segredos. O licor de maçã revelou o sabor dos seus lábios. O licor de limão revelou o que a roupa escondia.
          E assim foi. Carlos e Joana fazem agora um ano de namoro. Desta vez e, para comemorar, o rapaz quer repetir aquela que diz ter sido a melhor noite da sua vida. Colocou várias velas a traçar o caminho da sua porta de entrada até à mesa de jantar onde, ainda fechada, estava uma caixa de pizza. Ao lado estavam várias garrafas com etiquetas escritas à mão. Licores caseiros que Carlos conseguiu para uma ocasião tão especial. O mesmo filme na televisão. O mesmo casal tão apaixonado. Mas o tempo dá e o tempo tira.
          A jovem Joana, talvez por tão cega de amor, quis tomar uma medida para ter a certeza que este relacionamento seria para durar. Como sempre acontece, algumas características ficam escondidas no inicio, de forma a agradar ao máximo a outra pessoa. Joana quis revelar algumas das suas partes descuradas no ultimo ano e, pretendia que Carlos fizesse o mesmo. "Eu não gosto de desporto" diz ela. "Só fui correr contigo todas aquelas vezes porque não quero que aches que sou uma preguiçosa incapaz de se mexer". Apesar de não recolher a noticia com alegria, não foi um problema. "Eu não quero ter filhos. Sei que disse que estava aberto à ideia mas, a verdade é que não tenho intenção nenhuma de gastar um balúrdio e abdicar da vida para educar crianças" - rematou Carlos. Chocada, Joana dá um passo atrás. "Vamos para algo mais leve, de modo a não vir o peso todo de uma só vez. Eu não gosto de Frango assado. Sei que às vezes é prático ir buscar aqui ao lado, visto que não temos de cozinhar, mas eu não gosto." Carlos acolheu a ideia de ir devagar com algum agradecimento. Então decidiu responder com o que achava ser a mesma moeda - "Eu gosto e prefiro comer pizza com ananás. De facto, a que pedi para nós hoje foi com ananás para veres que não é nada mau." Escusado será dizer que nunca mais nada foi o mesmo. Durante o que pareceu ser uma década, houve um silêncio desconfortável na sala. "Como é que foste capaz?" Joana franzia as sobrancelhas de tal forma que o diabo subia ao céu para evitar o contacto visual. "Ananás na pizza? E ainda trazes esse crime para o meio da nossa relação? Alguma vez gostaste realmente de mim?" Carlos não sabe o que dizer. "É assim tão grave?" - Pergunta, enquanto num piscar de olhos, leva uma chapada. "Como te atreves? Ananás na pizza? Andaste este tempo todo a fingir que não gostavas só para me levares para a cama? Não me apareças à frente nunca mais!"
          Isto parece uma história descabida. No entanto, há que dizer que Joana tem toda a razão para ter aquela reacção. Para todas as pessoas selvagens que continuam a colocar fruta em pratos quentes, há um lugar especial no inferno com o vosso nome. Não se mistura ananás numa pizza!